O Impacto das Faculdades no Mercado de Trabalho
Fabio Mazzarino - 22/jun/2010
Blogsfera, Doses Diárias, Economia, Programação -

Até bem pouco tempo atrás eu sempre via com desconfiança reuniões entre acadêmicos e representantes do mercado de trabalho. Sempre acreditei que boas faculdades e universidades ensinariam a teoria e as tecnologias específicas ficariam a cargo de cada profissional de acordo com seus interesses pessoais e/ou profissionais.
Hoje já não penso assim.
Nos final dos anos 90 eu vi a imprensa especializada nacional, com o aval de parte do meio acadêmico, decretar a morte do C/C++. Diziam que a linguagem é ultrapassada, e que seria utilizada somente em casos bem específicos. Consequência, o mercado passou a exigir outras linguagens, e as faculdades foram atrás das exigências, abandonando C/C++ e assumindo Java no lugar.
Cheguei a ouvir de um mestrando: “C/C++ já era. Java é tudo“. Confesso que fiquei até um pouco chateado, uma vez que já tinha investido boa parte dos meus estudos nessa linguagem.
A consequência o mercado começa a enfrentar mais de 10 anos depois. O mercado de programadores C/C++ continua aquecido, mas está cada vez mais difícil de encontrar programadores que efetivamente conhecem a linguagem.
Na maioria das vezes são programadores de outras linguagens que tem uma noção do que é C/C++, até conhecem a sintaxe, mas na maioria das vezes não tem o conhecimento necessário para gerenciar as implicações da linguagem, que não são poucas.
Mas o que aconteceu com os programadores Seniores? A maioria já migrou para cargos de gerência, ou para outras linguagens, em busca de melhores salários.
Enquanto isso os programadores Plenos e Juniores não são mais formados. Uma pequena minoria tem real interesse na linguagem enquanto ainda na faculdade.
Hoje o mercado sente o impacto da alteração na grade curricular das faculdades e universidades. A dificuldade em se contratar programadores C/C++ é crescente, e com o mercado brasileiro em expansão os salários vão ficando cada vez maiores, na tentativa de evitar a evasão dos funcionários.
Problema ainda maior encontram empresas em que o negócio exige que a aplicação seja em C/C++, tais como sistemas embarcados, ou sistemas aonde a performance é crítica. Nestes casos não há opção, não há como se livrar da linguagem para outra mais popular.
Depois dessa reviravolta, que demorou mais de 10 anos para acontecer, passei a acreditar que é preciso um diálogo franco, direto e bi-direcional com as faculdades e universidades, para evitar num futuro próximo que a falha ocorra novamente.
Por enquanto resta aos profissionais C/C++ aproveitar a onda de boa sorte que já se abateu, e continua se abatendo, sobre os programadores Cobol.
Comentários
junho 23rd, 2010 às 9:01 am
ainda acho mais importante uma boa formação de base do q em tecnologia…
invariavelmente vc vai ter q escolher uma tecnologia na faculdade para poder começar a sua carreira, mas não dá pra fazer a carreira em cima de uma tecnologia… afinal, seria reduzir o potencial humano a um instrumento.
junho 23rd, 2010 às 9:20 am
Uma coisa que tem favorecido o uso de C/C++ ultimamente é a aquisição da Sun por parte da Oracle que gerou uma certa incerteza em algumas empresas.
junho 23rd, 2010 às 10:19 am
Gardenal:
O grande problema de não ensinar C/C++ na faculdade é a proximidade da linguagem do gerenciamento de memória física. Em pouquíssimas outras linguagens é necessário fazer o gerenciamento da memória alocada, dos limites de arrays e coisas do tipo. São especificidades da linguagem que acabam por dar uma melhor formação aos programadores embutindo preocupações com memória e performance, por exemplo.
junho 23rd, 2010 às 3:14 pm
Selma:
Neste caso, provavelmente, é uma situação temporária. Duvido muito que a Oracle vai estragar um ativo como a linguagem Java, a quantidade de serviços agregados ao suporte a linguagem é muito grande. A incerteza irá se desfazer com o tempo e o ritmo de crescimento ou diminuição da popularidade da linguagem vai voltar aos níveis normais (de qdo não havia a incerteza).
junho 24th, 2010 às 8:42 am
Essa guerra entre linguagens nunca vai acabar. Quando o Java ainda não era popular, reinava a briga entre o Pascal e o C. Minha solução foi simples, aprendi as duas, logo depois, e por sugestão de um professor da faculdade aprendi Java. Hoje trabalho como gerente de projetos, mas até chegar aqui passei pelas linguagens: Shell script, Groovy, Perl, PL/SQL, Javascript e um pouquinho de Python. Claro que tenho minha linguagem preferida, mas não a imponho ao cliente, o programador profissional deve dançar conforme a música.
PS: Não sou contra do ensino de C/C++ nas faculdades =D
junho 24th, 2010 às 8:44 am
O problema da tal relação empresa-faculdade é que a faculdade sempre se submete aos desejos dos empresários. Vejo isso na minha cidade, que não é uma cidade muito grande mas tem uma indústria de software bastante influente e algumas faculdades. No desespero para viabilizar seu negócio, as faculdades atendem cegamente os desejos das empresas e usam isso para se promover com os estudantes (a promessa no “emprego certo”). As empresas, por sua vez, não tem qualquer compromisso com a volatilidade do que é ensinado nas faculdades, pois, para elas, sempre haverá a rotatividade. O resultado é um punhado de cursos superiores que na verdade não cursos técnicos com mais glamour. As disciplinas fundamentais (e chatas, aquelas que reprovam) são superficialmente abordadas apenas para atender as exigências do diploma que se oferta. É um desastre.
junho 24th, 2010 às 8:46 am
Sou um programador C++ e, se há tanta procura por profissionais da área, eu não sinto isso. Por exemplo, em sites tecnológicos de empregos/vagas como o http://netcarreiras.com/ chovem propostas para programadores Web e Java, enquatdo C++ parece estar mofando… onde está essa demanda por C++ (a não ser em projetos de software livre)?
junho 24th, 2010 às 9:09 am
Sou engenheiro e M.Sc. em engenharia, desenvolvo em C/C++ desde 2004 e também programo em Java (muito pouco) e Python.
Eu acredito que cada tecnologia tem o seu lugar e algo que “emplacou”, e. g. C/C++, Java, HTML, etc….., nunca deveria ser deixado de ser ensinado, ou ao menos referenciado.
C/C++ sempre será usado em aplicações que exigam programação em um nível mais baixo, muitos sistemas embarcados ainda não têm um sistema operacional para gerenciar a memória física. Lembrando que normalmente este SO é desenvolvido em C/C++.
Cada linguagem de programação tem suas vantagens e limitações, não se pode esquecer o legado de aplicações que já foram desenvolvidas em tantos anos de história da tecnologia, desde os antigos códigos em ASSEMBLY.
Obs.: Já tive que inserir códigos ASSEMBLY em C para um sistema embarcado que não tinha SO, tentem fazer isso com uma linguagem de mais alto nível.
junho 24th, 2010 às 9:42 am
Olha, estou procurando emprego para trabalhar com C ou C++, e simplesmente ta muito difícil de arrumar. A maioria das vagas é para web, C# e Java. Onde estão essas vagas?
junho 24th, 2010 às 9:56 am
Ricardo:
O mais interessante é que não somente as faculdades particulares, que precisam “viabilizar seus negócios”, partiram para o “abandono” do ensino de C/C++. As públicas, que teoricamente não precisam se preocupar muito com as exigências do mercado e de seus alunos também aderiram ao Java em detrimento do C/C++.
Reafirmando. Não sou contra a linguagem Java, nem a favor de um “guerra” entre as linguagens, cada qual tem seu espaço. A observação foi que o fim do ensino de C/C++ nas faculdades está afetando o mercado de trabalho.
junho 24th, 2010 às 9:58 am
Enquanto existir hardware sempre existirá C/C++ pelo seu alto desempenho, mas no que tange a Java, esta já é uma linguagem em declínio, Java é apenas uma máquina virtual, o resto é especificação, é muito fácil de ser substituida por ser uma linguagem trabalhosa e chata de se programar.
junho 24th, 2010 às 9:59 am
Suzuki:
Trabalho com C/C++ há mais de 15 anos. E posso lhe dizer, faltam profissionais C/C++. Hj mesmo temos duas vagas em aberto (uma para Pleno e outra para Sênior), e estamos com pouca perspectiva de preenchê-las tão cedo. Os candidatos que se apresentaram não tinha conhecimento necessário, poderiam ser qualificados no máximo como Juniores.
Qdo vc olha um site especializado e tenta contabilizar a qtde de vagas, vc vai, sem dúvida alguma, encontrar poucas vagas de C/C++. A questão não é a qtde de vagas, e sim a qtde de profissionais qualificados para preencher as vagas existentes. São menos vagas porém preenchidas com muito mais dificuldade.
junho 24th, 2010 às 10:01 am
Gustavo:
Ou vc está numa região em que a demanda é muito baixa, ou você não tem conhecimento suficiente para preencher as vagas em aberto. Pode até ser que vc tenha uma pretensão salarial muito alta. Vários fatores podem afetar sua facilidade ou dificuldade em encontrar a oportunidade pretendida.
junho 24th, 2010 às 10:08 am
Acredito que você confundiu uma diferença básica no seu texto. Ensinar uma linguagem de programação não é ensinar a programar.
Um programador de verdade domina uma linguagem nova em uma, no máximo duas semanas. Então o que o mercado deveria sentir falta é de programadores de verdade, não de pessoas que saibam linguagem X ou Y.
junho 24th, 2010 às 10:20 am
Fernando:
Tanto a linguagem C como Pascal tem algumas peculariedades. Em ambos os casos é preciso saber gerenciar a memória. Mais em C que em Pascal, que tem array bound check.
Este tipo de conhecimento que faz com que programadores Java tenham dificuldades ao migrar para C/C++, mm pq a sintaxe das duas é muito parecida, e frameworks são fáceis de aprender e de se adaptar.
junho 24th, 2010 às 10:41 am
Olha, eu estou na mesma do Gustavo. Trabalhei 2 anos desenvolvendo SO pra celular mas depois que sai da empresa nunca mais vi uma vaguinha boa pra Jr/Pleno com C.
No momento to meio longe (resolvi vir estudar ingles na Australia) justamente porque nao achei uma vaga dessas. Em qual regiao do pais voce esta?
junho 24th, 2010 às 12:36 pm
Quando será que as empresas vão perceber que não podem depender de faculdades para formar profissionais? E quando vão perceber que se não existem programadores seniors, terão que investir em um jr iniciante?
junho 24th, 2010 às 12:56 pm
Jean:
As empresas até contratam Juniores e Trainees, mas precisam também de Seniores para passar o conhecimento para os novatos.
Profissionais que se dizem programadores C tem bastante, mas a maioria deles não tem o conhecimento mínimo para atuar como tais.
junho 24th, 2010 às 4:01 pm
Rapaz… programo em C/C++ há +/- 8 anos, e sinceridade, cadê as vagas boas?!?! Estou sendo obrigado a programar em Delphi porque sinceramente, empresas pagando $1500,00 para programar em C++, ninguém merece! Pode até ser que realmente faltam profissionais, mas o que mais falta é empresas que querem realmente pagar pelo profissional.
[]s
junho 24th, 2010 às 5:58 pm
Fabio:
É claro que isso não é regra. Mas com as perdas acumuladas nos salários dos professores universitários nas públicas, o que eu vejo é uma grande quantidade deles passando a participar da indústria (formação sabemos que eles têm), seja em consultorias, seja como funcionários de empresas nos mais diversos cargos. Há algum tempo, isso era incomum. Sempre fui a favor de que os professores tivessem alguma atividade na indústria, mas o efeito colateral disso é esse que você citou: o lobby do empregador entra na universidade pública pelos professores. Já vi, disfarçadamente, alguns professores trabalhar duro por mudanças no currículo dos cursos que viriam a favorecer seus interesses comerciais fora da universidade. Lembrando que eles ainda têm a vantagem de recrutar na “boca” da universidade. Por último, a minha visão de “abandono” é ainda mais ampla que a sua: não somente o C++ está sendo abandonado, a ciência e a formação de conhecimento estão sendo abandonados. As faculdades, estão “alugadas” para TREINAMENTO.
junho 24th, 2010 às 7:31 pm
sinceramente sou novato em C e estou aprendendo sozinho em casa com as apostilas e tutoriais, moro no interior e estou terminando os estudos, e quero entrar na faculdade para aprender mais sobre a linguagem C, e acho q não vou aprender nas faculdades por q na região em q moro as faculdades só ensina JAVA,DEPHI,PYTHON. eu sou a prova disso!
junho 25th, 2010 às 1:37 am
Povo gosta de coisa fácil e deixa o que presta de lado, cadê ASM,ansi C e Common Lisp ? pessoal sujo do C#,vb,java,asp faz a cabeça do povo menos inteligente dá nisso…
Aprenda=(lang==deriva(microsoft || SUN || Adobe))?kick():OK;
cara cobra 1200 pra fazer sistema bruto em C, dai vai um cara que coda VB e cobra 500, cliente quer nem saber cliente não sabe de nada para ele só vale preço…
junho 25th, 2010 às 10:09 am
O problema maior não é a linguagem que é ensinada nas faculdades, é o fato de não ensinarem a programar direito em nenhuma linguagem. Lógico que ao ensinar uma linguagem como C ou C++ são apresentados ao aluno elementos como alocação de memória, endereçamento, entre outros, que dificilmente lhes serão apresentados em outras situações, mas mesmo assim, uma boa formação de lógica e o aprendizado aprofundado de pelo menos uma linguagem de programação já seria suficiente para elevar consideravelmente o nível do ensino superior na área.
junho 26th, 2010 às 4:35 pm
Vai acabando cara, novas linguagens vão surgindo e outras ficarão pra trás. Se for pensar sempre assim, não vamos progredir tanto quanto podemos.
O comentário do Marcelo Minholi foi ótimo!
junho 28th, 2010 às 8:56 pm
E tudo acaba em linguagem de máquina…
setembro 17th, 2010 às 5:16 pm
Quando comecei a programar me expecializei em C ansi e C++, maior perda de tempo, as únicas vagas apareciam eram para engenheiro eletronico ou algo parecido, para mim foi um erro, por ser inexperiente, começar a programar nessa linguagem procurando mercado, hoje só uso em projetos pessoais, o mercado pede .net, java, delphi, e fazer o que se eu vivo dos serviços que aparecem, tenho que usar essas linguagens por causa da manutenção, produtividade e bla, bla, bla,, é o que as empresas pedem, na minha opinião c e c++ são as melhores mas possuem um mercado restrito.
setembro 20th, 2010 às 11:31 pm
Diego:
Infelizmente o mercado de C/C++ é bem restrito, não existem muitas vagas no mercado, mas existem mais vagas que bons profissionais, e a tendência é ficar cada vez mais difícil encontrar programadores C/C++. Um problema que os mais novos encontram, é que a maioria das empresas prefere programadores experientes, barrando novos talentos.
Estou com C/C++ profissionalmente como engenheiro desde 2002 e acredito que fiz um bom negócio.
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